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  • Matheus Santana: “quero estar em 2016 e disputar medalha”

    01/04/2014 por Beatriz Nantes em Home, Natação, Personagens / Sem comentários

    Os resultados não mentem: Matheus Santana já é uma realidade. O juvenil que bateu os fortes recordes de categoria de Cesar Cielo conquistou, no Sulamericano deste ano, seu primeiro resultado de alto nível no absoluto: ouro nos 100 livre, vencendo a prova com 49”13. Diabético desde os 8 anos, Matheus foi cortado da seleção brasileira para o Mundial Junior no meio do ano passado, pouco depois de trocar o Botafogo pela Unisanta, e diz que usou o corte como motivação para voltar melhor no segundo semestre. Ele fala sobre isso na entrevista, além de contar sobre seu início na natação, o objetivo para esse ano (que não é o Pan Pacific!), sua rotina e  o que espera de 2016.

    Beatriz Nantes: Hoje você é velocista, mas levantamos seus resultados desde petiz e vimos que sua primeira medalha de Brasileiro foi nos 200 livre, no brasileiro de inverno infantil 1. Como era seu treino na época?
    Matheus Santana: Foi isso mesmo, minha primeira medalha foi nos 200 livre. Na época eu treinava metragem muito grande. Quando tinha dobra, chegava a nadar 10 mil metros. Eu nadava muito mais provas que hoje, cheguei a nadar 200 borboleta e 1500 livre. O treino não era tão específico.

    BN: Você gostava?
    MS: Eu gostava mais de nadar os 100 livre e os 200. Nadava bastante borbo também, e gostava.

    santana

    Matheus defendeu o Botafogo até 2012

    BN: Onde você começou a nadar? Fazia outros esportes quando era mais novo?
    MS: Comecei a nadar numa escolinha no Fluminense e depois fui para o Olaria. No petiz, fui para o Botafogo, onde fiquei até 2012. Quando era menor eu fazia jiu jitsu, e cheguei a fazer escolinha de futebol. Mas sempre gostei de nadar.

    BN: Depois dessa medalha dos 200 livre, você ficou dois brasileiros sem pegar pódio, e foi voltar no infantil 2, bronze nos 50 livre. Você acha que nadar uma prova tão competitiva no Brasil em todas as categorias, como as de velocidade, te ajudou a não se acomodar? Como foi essa época?
    MS: Depois da medalha dos 200 livre, fiquei uma época sem conseguir me destacar, fiquei meio desmotivado com a natação. Mas eu sempre treinei forte, sempre busquei objetivos que eu estabeleci para mim. Depois no intantil 2, fui evoluindo um pouco mais, e acho que isso foi importante para não me deixar desistir, não me desmotivar. No infantil eu treinava muito. A partir do juvenil foi quando eu comecei a especificar mais.

    BN: Você sempre quis ser nadador “profissional”, mesmo nessa época? Já sonhava com isso desde novo?
    MS: Sempre sonhei em ser nadador profissional, chegar em uma Olimpíada. Mas de uns tempos para cá que eu acho que comecei a chegar mais perto.

    BN: Teve algum momento, alguma prova ou competição, que deu um clique e você percebeu isso?
    MS: Acho que o divisor de águas foi um 100 livre no Open quando eu era juvenil 1, em 2011. Eu fiz 51” na época. Era um tempo que na época, para juvenil, as pessoas olhavam e falavam “nossa, tá nadando pra caramba!”. Ali eu percebi que podia dar algo a mais. Dali em diante eu fiquei muito focado, mais motivado.

    BN: Você tem algum ídolo na natação?
    MS: Eu acompanho bastante o Cielo nadando, ele tem um talento inquestionável. Mas quem eu me espelho mesmo é no Nicholas [Santos, campeão mundial do 50 borboleta em piscina curta, esteve em duas Olimpíadas]. Gosto do jeito que ele lida com as coisas.

    Ao lado do ídolo e companheiro de equipe, Nicholas Santos

    Ao lado do ídolo e companheiro de equipe, Nicholas Santos

    BN: Já falou isso para ele?
    MS: Já. Ele fica rindo, falando “ah, quando você ganhar uma medalha olímpica não vai esquecer de mim”.

    BN: Você disse que começou a especificar o treino no juvenil, e em que momento começou trabalho de musculação?
    MS: Desde o infantil 2 eu já trabalhava com um pouco de peso, não musculação, mas já fazia trabalho com peso. Musculação mais intensivo mesmo foi a partir do juvenil 1 para o 2.

    BN: Sua ascenção a partir do juvenil 1 foi bem rápida. Você ganhou seu primeiro título de brasileiro e no ano seguinte já bateu recorde do Cielo. Bater os recordes dele era algo que você tinha como objetivo?
    MS: Aconteceu de forma natural. Eu não ficava procurando o recorde, foi algo que aconteceu.

    BN: Como você se motiva? É daqueles que anota um tempo e guarda para você, cola no quarto, penso nos objetivos no início do ano…
    MS: Eu consigo me motivar no começo do ano colocando objetivos na cabeça. Consigo ficar bem focado e deixar isso bem claro na minha cabeça, lembro disso quando eu treino. Consigo me motivar sozinho.

    BN: Você gosta de treinar?
    MS: Eu gosto. Sou uma cara que gosto de sentir dor no treino, gosto de dar meu máximo todo dia.

    BN: E de competir?
    MS: Sou bastante competitivo. Gosto de estar sempre competindo.

    BN: Como foi a decisão de sair do Botafogo? Vários clubes devem ter te procurado, qual o diferencial da Unisanta?
    MS: No Botafogo eu não estava mais tendo a estrutrura que precisava, não tinha mais um suporte para continuar motivado. Procurei alguns clubes e alguns clubes me procuraram. Mas eu já tinha contato com o Marcio Latuf, a gente já se conhecia e acabou fechando esse acordo. Foi meio difícil a adaptação no começo, mas depois de um mês eu já consegui me adaptar legal, ajeitar meu nado, a o Marcio fez um trabalho para ajeitar a técnica e a estratégia de prova. Hoje em dia a gente se dá super bem, acho que estou 100% bem aqui, tenho tudo que eu preciso. Estou feliz no Unisanta.

    Foto: Satiro Sodré/SSPress

    Foto: Satiro Sodré/SSPress

    BN: Seus pais foram para Santos com você?
    MS: A princípio eu iria morar sozinho, depois o meu pai veio passar um tempo comigo. Ele gostou da cidade, do ambiente de treinamento, e agora ele fica aqui, e volta quando eu vou viajar.

    BN: Como está sendo viver em Santos? Sente muita falta do Rio?
    MS: Às vezes sinto da familia, dos meus amigos… mas morar aqui é bem parecido com o Rio, Santos é um mini Rio (risos).

    BN: Você está estudando?
    MS: Não comecei a faculdade ainda. Estou meio em dúvida, nao sei direito o que vou fazer.

    BN: Quando você descobriu que tinha diabetes? Como lida com isso?
    MS: Fiquei diabético com 8 anos. Nunca me atrapalhou até o dia que eu deixei de morar com meu pai e minha mãe. Eu pisei um pouco na bola, e aconteceu tudo o que aconteceu. No final, foi importante para eu ter uma consciência melhor.

    BN: Como foi esse momento? No primeiro semestre você nadou um pouco acima dos seus melhores tempos.
    MS: No começo do ano passado eu tive muitas viagens, a cada duas semanas viajava para algum lugar. Primeiro teve Austrália, depois Sulamericano, clínica em Brasília, depois Multinations, Brasileiro Junior. Acho que não deu para encaixar legal no treinamento, sempre dava uma quebrada. Isso que me atrapalhou um pouco. Depois a gente conseguiu parar e teve um longo período de treino, e começou a funcionar. Depois não pude competir o Mundial Junior e começou tudo de novo do zero. Tive um tempinho, um mês e meio, e consegui encaixar o treino.

    BN: Como foi ficar fora do Mundial Junior? [Matheus foi cortado em função do tratamento de diabetes]
    MS: Foi bem dificil. Eu fiquei bem chateado. Chorava com o Marcio, com a minha namorada, com a minha mãe… Mas eu procurei esquecer um pouco. Fiquei umas três semanas sem treinar, voltei para o Rio. Procurei não saber dos resultados, dar uma afastada mesmo. Depois que passou, que eu consegui digerir esse corte que eu tive, acho que eu consegui realmente começar do zero. Do zero no tratamento, no treinamento, em tudo. E consegui lidar bem com isso.

    BN: A seleção fez várias homenagens para você lá. Você tem muitos amigos na natação?
    MS: O grupo que foi para Dubai era um grupo bem único. Já vinha de várias seleções juntos. Quando eu vi, fiquei bem emocionado. Mandei mensagem pra eles no mesmo dia, achei bem bacana.

    BN: No próprio ano você voltou com tudo. Melhorou os tempos, classificou para o Sulamericano. A quê e a quem você atribui essa sua melhora no desempenho?
    MS: A minha vontade depois do corte era dar a volta por cima, mostrar para mim mesmo que esse corte tinha sido drástico mas ao mesmo tempo importante pra minha consciência de diabético, que isso ajudaria meu treinamento. Fiquei bem motivado pelo corte na verdade, me motivou a conseguir buscar meus resultados o mais rápido possível. No Brasileiro Junior, eu esperava nadar um pouco melhor. Não só o tempo, mas nadar a prova melhor. Acabei passando um pouco forte e dei uma cansada no final. No Open, eu já nadei um pouco melhor, dividi melhor. E no Sulamericano eu acho que foi a melhor prova nadada por mim. Saída boa, virada boa. Estou chegando perto dos meus objetivos de tempo e da forma que eu espero nadar os 100 livre.

    Sula: Título absoluto no 100 livre

    Sula: Título absoluto nos 100 livre

    BN: Você estava descansado no Sula?
    MS: A gente não estava descansado, mas diminuiu um pouco o volume de treino. Eu cortei a dobra da semana também. Só que eu tava com uma sensação boa na água, isso ajudou.

    BN: E agora para o Maria Lenk? Como estão os treinos e qual o objetivo?
    MS: Ainda estamos no finalzinho do específico, com treino forte. No fim de semana que vem, começa o pré polimento, tem competição em Santos, e aí começa o polimento. Primeiro eu tô pensando nas Olimpíadas da Juventude, mesmo que faça índice para o Pan Pacific eu acho que vou focar nos Jogos da Juventude.

    Pergunta do leitor – Gustavo Cardoso: Matheus vem sendo apelidado de ” o novo Cielo”, como ele lida com essa comparação e se isso o ajuda ou atrapalha na hora das competições.
    MS: Eu na verdade não lembro disso no dia a dia, só quando alguém me pergunta.  Eu acho que é uma coisa boa, mas não gosto de ficar sendo toda hora comparado ao Cielo. O Cielo é o Cielo, nada de um jeito, eu de outro. Claro que ser comparado com o melhor velocista do mundo é legal. Mas primeiro penso em fazer o meu trabalho, para depois pensar em chegar onde ele chegou.

    BN: Você já pensa em 2016?
    MS: Eu tô pensando aos poucos, um passo de cada vez. O Marcio sempre fala isso para mim. Mas em 2016, eu espero estar lá e nadar o revezamento e a prova, e quero disputar medalha.

    BN: E os 200 livre, que te deu sua primeira medalha de brasileiro. Você pensa em focar?
    MS: Tinha muito tempo que eu não nadava bem os 200 livre. No Brasileiro Junior, consegui fazer uma divisão meio maluca da prova, mas deu certo. Agora vou nadar o Maria Lenk, a gente vai ver o que vai sair, para ver as possibilidades.

    BN: Mentalmente, você se sente preparado? Como é competir contra nomes como Cielo e Fratus?
    MS: Cada um tem seu jeito de lidar com a pressão. Eu sou bem tranquilo quanto a isso, consigo não deixar esse negócio de pressão me afetar muito. E tem outra coisa, eu acho que os dois estão bem focados nos 50 livre, e eu vejo que minha prova principal hoje é os 100 livre. A pressão de nadar com eles não me afeta muito, eu sei que na competição vou estar preparado, pronto pra dar meu melhor.

    BN: Sua prova preferida é os 100 livre?
    MS: Eu gosto bastante de nadar o 100 livre. Tinha uma dificuldade na saída para o s50, eu ficava pra trás. Acho que agora já acertou, dá para nadar bem esse cinquentinha.

    Pergunta do leitor – Vítor Anfrizio: Qual a rotina dele (treino físico, dieta, dobras etc.).
    Treino na parte da manhã, de segunda a sábado, e dobro duas vezes na semana, na terça e quinta. De manhã a gente faz musculação e preparo antes do treino, depois a gente cai das 9h às 11h30 mais ou menos.

    Com o técnico Marcio Latuf

    Com o técnico Marcio Latuf

    BN: Como foi o trabalho que você fez na Unisanta para aprimorar seu estilo? 
    MS:  O Marcio logo percebeu que a minha técnica não era das melhores. A gente fez um trabalho de técnica, de diminuir braçada, diminuir a frequência, aumentar a força, e de melhorar a técnica e a pernada. Meu pé saia muito fora da água, fizemos trabalho subaquático para ver o quão eficiente era minha braçada. Isso tudo me fez melhorar. Ele é um cara que todo dia cobra a mesma coisa. Não dá para esquecer que ele vai estar lá.

    BN: Qual seu treino ou série preferida?
    MS: A gente faz um monte, não consigo lembrar da preferida. Mas eu gosto de série na porrada. AN, fazer força, eu gosto.

    BN: Dê um recado aos leitores do blog.
    MS: Eu queria agradecer as mensagens que eu recebi pelo Sulamericano. Agradecer a torcida do pessoal e mandar um beijo pra todo mundo.

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    • MAtheus Santana

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